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Quando o Ozempic encontra a OpenAI

Quando o Ozempic encontra a OpenAI

MedMoney Talks #010

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Quando o Ozempic encontra a OpenAI

Olá, Colega.

Aconteceu uma coisa esta semana mais relevante para a sua profissão e para o seu patrimônio do que o Copom de quarta-feira. E não, não é a janela do Tesouro IPCA+ a 7% real. Essas eu já cobri nas duas últimas edições.

Em 14 de abril, a Novo Nordisk anunciou parceria com a OpenAI para acelerar a descoberta de medicamentos. Não foi piloto. Não foi prova de conceito. Foi a entrega da cadeia inteira, pesquisa, manufatura, supply chain, operações comerciais e até treinamento da força de trabalho. Dias depois, a Eli Lilly fechou licenciamento de US$ 2,75 bilhões com a Insilico Medicine, uma startup de biotech com IA generativa.

Para o médico que ainda achava que IA era assunto de prontuário eletrônico ou triagem de exame, eis o sinal: a IA chegou na cadeia industrial da farmácia. E vai redesenhar dez anos de prescrição médica em metade do tempo.

Esta edição é especial. Saiu da rotação habitual de pilares para tratar do que considero o evento estrutural mais relevante da década para quem trabalha com medicina e investe em saúde. Vamos por partes.


1. Duas estratégias opostas para o mesmo prêmio

A primeira coisa que precisa ficar clara é que Novo Nordisk e Eli Lilly não estão fazendo a mesma coisa. A imprensa empacotou as duas notícias como "Big Pharma adota IA". Não é isso.

A Novo entregou a empresa inteira. Lars Fruergaard Jorgensen, CEO da Novo, descreveu a parceria com a OpenAI como integração total prevista para o fim de 2026, abrangendo descoberta de moléculas, manufatura, supply chain e operações comerciais. Ao Globe Newswire, Sarah Friar, CFO da OpenAI, mencionou um licensing model em que a OpenAI receberia parcela das vendas dos medicamentos descobertos via IA. Se esse modelo se consolidar, é a primeira vez na história que uma empresa de tecnologia entra no funil de royalties farmacêuticos.

Pense na implicação. Big tech passa a capturar valor recorrente da descoberta científica, comprimindo as margens das farmacêuticas tradicionais. O moat da patente de doze anos vira o moat da plataforma de IA, que é menor, mais móvel e exige royalty contínuo.

A Lilly fez aposta diferente. Pagou US$ 2,75 bilhões por um deal específico com a Insilico Medicine, especialista em descoberta de moléculas com modelos generativos, mas manteve controle interno do restante da cadeia. É um movimento mais conservador, mais auditável e provavelmente mais defensável diante de reguladores rigorosos.

O contexto importa. A Novo perdeu participação de mercado: era 60% do GLP-1 em 2024, está em 40% hoje. A Lilly subiu para 60% com a tirzepatida, que entrega 20% de perda de peso média contra 14% da semaglutida, e com a Foundayo, pílula GLP-1 oral aprovada pelo FDA em 1 de abril de 2026. A Novo aposta em vantagem assimétrica de plataforma para correr atrás. A Lilly aposta em execução pontual para preservar a liderança.

O prêmio é grande. O Goldman Sachs projeta o mercado global de GLP-1 em US$ 95 bilhões até 2030. O Itaú BBA, em relatório de 22 de abril, vai além, estima até US$ 160 bilhões no cenário agressivo. McKinsey e BCG calculam que o ciclo histórico de descoberta, hoje em dez a doze anos, pode cair para cinco a sete anos quando a IA assume triagem virtual de bibliotecas moleculares, predição de toxicidade e desenho de ensaios clínicos adaptativos. Metade do tempo. O dobro de lançamentos por década. Patentes que comprimem porque o cronômetro corre mais rápido.

Para o investidor, a leitura é nítida. Investir em NVO é apostar em big pharma reinventada por plataforma. Investir em LLY é apostar na execução de pipeline. As duas teses são legítimas. Não são a mesma coisa.


2. A revolução clínica que já está no consultório

O médico brasileiro que abriu agenda nas últimas semanas não precisa de relatório de equity para entender o que está acontecendo. A demanda por GLP-1 mudou a dinâmica da consulta em todas as especialidades clínicas.

Os agonistas de GLP-1, e o duplo agonista GLP-1/GIP no caso da tirzepatida, atuam mimetizando o hormônio incretínico endógeno. O efeito vai muito além da saciedade central e do retardo do esvaziamento gástrico. Há receptores de GLP-1 expressos no miocárdio, no rim, no córtex pré-frontal e em microglia. É essa ubiquidade receptorial que explica a expansão clínica em cascata.

A trajetória de indicações está se ampliando rápido. Obesidade e diabetes tipo 2 foram apenas a porta de entrada. O estudo SELECT, publicado em 2023, mostrou redução de 20% em eventos cardiovasculares maiores em pacientes com obesidade e doença cardiovascular estabelecida sem diabetes, e a indicação cardiovascular foi aprovada pela FDA em 2024. O FLOW trial demonstrou redução de 24% em desfechos renais compostos, com aprovação em 2025. O STEP-HFpEF mostrou melhora consistente em insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Os ensaios EVOKE e EVOKE+ em Alzheimer leve seguem em andamento, com leitura prevista para 2026, e os sinais preliminares são promissores. MASH e dependência química também aparecem em estudos observacionais consistentes.

A patente da semaglutida expira em março de 2026 em Brasil, China, Índia, Turquia e Canadá. São mercados que somam 40% da população mundial e 33% das pessoas com obesidade. O mercado brasileiro de canetas e pílulas GLP-1, que fechou 2025 em R$ 10 bilhões, deve saltar para R$ 20 bilhões em 2026 com a entrada dos genéricos, segundo Capital Aberto e Bloomberg Línea em reportagens de 23 de abril. EMS, Hypera, Cimed e Biomm já anunciaram lançamentos com preços 30% a 50% menores.

Em vinte e quatro meses, a sequência terapêutica mudou. A metformina segue como primeira linha em DM2, mas a adição precoce de GLP-1 em pacientes de alto risco cardiovascular já é recomendação da SBD e da SBC. Em obesidade, o algoritmo passou de "dieta, exercício, eventualmente medicação" para "estratificação de risco metabólico e introdução farmacológica concomitante à mudança de estilo de vida" quando o IMC supera 30, ou 27 com comorbidade.

O ponto que a maioria dos comentaristas não articula é a tese contraintuitiva de receita médica. Curto prazo, GLP-1 enche o consultório. Endocrinologia, cardiologia, clínica geral e psiquiatria com viés metabólico estão capturando volume, e consultas de seguimento tornaram-se padrão. Médio prazo, se o GLP-1 funciona como prometido, pacientes com peso controlado terão menos comorbidades, menos consultas, menos exames, menos procedimentos. O modelo de negócio baseado em volume de retornos por paciente crônico pode encolher em janela de cinco a dez anos.

A resposta racional não é nostalgia. É reposicionamento para serviços de maior densidade técnica: medicina preventiva estruturada, longevidade, manejo de sarcopenia (justamente o efeito adverso do próprio GLP-1) e saúde mental metabólica. O médico vira gestor de risco do paciente, não tratador de evento.


3. A disrupção brasileira: RADL3, HYPE3 e o efeito Ozempic visível em balanço

O reflexo brasileiro do boom GLP-1 já está mensurável e aparece nos resultados.

A RD Saúde, RADL3, entregou no 4T25 lucro cerca de 8% abaixo do consenso, pressionado por margem bruta menor justamente pela penetração da categoria GLP-1, que tem ticket alto, mas margem comprimida pela negociação direta com a indústria. O CEO confirmou que GLP-1 já representa cerca de 10% da receita líquida. A meta de abrir entre 330 e 350 lojas novas em 2026, chegando a 3.547 farmácias, segue mantida. JPMorgan e Bradesco BBI mantêm RADL3 como top pick farmacêutico. Em relatório recente, o Bradesco BBI registrou: "Pague Menos e RD Saúde são nossas principais escolhas no setor farmacêutico, sustentadas por bom momento de lucro e valuation atrativo." A tese é defensiva, com dividendos consistentes próximos de 3,5% e exposição estrutural ao volume de genéricos.

A Hypera, HYPE3, está em posicionamento mais agressivo. Vai lançar semaglutida genérica em parceria com fabricante indiano logo após a quebra de patente, capturando margem alta no início da curva. O risco é pressão de preços e judicialização de patentes secundárias. O upside é alavancagem operacional ao tema, que pode ser superior à das farmácias se a execução for limpa.

A Pague Menos, PGMN3, aparece nas listas de XP e Bradesco BBI, mas é mid cap com liquidez menor e governança em revisão. Para o médico que está montando exposição temática, prefiro RADL3 e HYPE3 como dupla principal e PGMN3 como complemento opcional.

Quem já tem exposição em saúde via Rede D'Or, RDOR3, precisa entender uma coisa: não está coberto na tese GLP-1. RDOR3 é serviço hospitalar, não captura a tese de descoberta de medicamentos. A diversificação correta é manter RDOR3 como core de saúde brasileira e adicionar uma fatia em RADL3 ou HYPE3 para capturar o lado farmacêutico.

Sobre as operadoras de planos, o efeito GLP-1 é ambíguo. Curto prazo, há pressão orçamentária pela cobertura crescente de obesidade, com o rol da ANS já incorporando semaglutida em 2025 sob critérios restritos. Médio prazo, há redução de custos com comorbidades cardiovasculares, doença renal crônica e internações por descompensação metabólica. O consenso de buy side é que o efeito líquido será positivo a partir de 2027 e 2028. Estudos de mundo real da Mayo Clinic e Cleveland Clinic já mostram redução de 18% a 22% em hospitalizações por insuficiência cardíaca e infarto em coortes que aderiram a GLP-1 por mais de dezoito meses.


4. A janela pré-Copom não desaparece

A edição é temática, mas o calendário macro não para. Na quarta e quinta-feira, 28 e 29 de abril, o Copom decide. A Selic atual é 14,75%, depois do corte de 25 pontos-base em março. A pesquisa consolidada pelo JOTA e replicada pelo InfoMoney mostra mercado dividido: 55% projetam novo corte de 0,25 ponto, 40% esperam manutenção, e uma minoria menor cogita aceleração para 50 pontos.

O Boletim Focus de 20 de abril traz Selic terminando 2026 em 13,00%, primeira alta da série após treze semanas de estabilidade. O IPCA 2026 subiu para 4,80%, sexta alta consecutiva e bem próximo do teto da meta de 4,50%, o que dá ao Banco Central justificativa técnica para manter cautela mesmo se cortar. PIB 2026 em 1,86% e dólar projetado em R$ 5,30. O Ibovespa fechou 24 de abril em 190.745 pontos, queda de 2,55% na semana, a maior desde o início do conflito no Oriente Médio.

Na curva de juros, em 24 de abril o Tesouro Direto teve alta generalizada. O Prefixado 2029 chegou a 13,54% e os IPCA+ longos cruzaram os 7% reais ao ano, patamar historicamente raro. A análise do Seu Dinheiro descreve o momento como "janela de ouro": com a Selic projetada para cair entre 12,00% e 12,25% no fim de 2026, papéis longos podem entregar marcação a mercado expressiva nos próximos dezoito a vinte e quatro meses.

Essas taxas existem porque o mercado precificou cenário pessimista. Quem trava agora captura o medo. Se o Copom cortar, marcação a mercado positiva. Se mantiver, ainda assim taxa real altíssima travada por anos. Quem já alocou em IPCA+ longo nas duas últimas edições captura o cenário atual. Quem não alocou, esta semana é decisória.

A função estratégica do IPCA+ longo na carteira de quem topa tese temática é clara. Renda fixa real acima de 7% é a base de segurança que permite assumir risco em ações de IA + saúde sem perder o sono.


5. Painel dos analistas

A semana entregou comentários consistentes de fontes diversas. Selecionei cinco que merecem registro.

Goldman Sachs. Mantém projeção de mercado global de GLP-1 em US$ 95 bilhões até 2030, considerada cenário base. O cenário agressivo do Itaú BBA, em relatório de 22 de abril assinado pela equipe de farmácia, eleva o teto a US$ 160 bilhões com a abertura mais rápida de indicações em cardiovascular, renal e neurodegeneração.

Sarah Friar, CFO da OpenAI. Em comunicado ao Globe Newswire e em entrevistas posteriores, sinalizou que o acordo com a Novo Nordisk pode incluir um licensing model com royalties sobre medicamentos descobertos via IA. É declaração inédita no setor e abre precedente que precisa ser monitorado por quem investe em farmacêutica tradicional.

Bradesco BBI. Em relatório de 21 de abril, registrou: "Pague Menos e RD Saúde são nossas principais escolhas no setor farmacêutico, sustentadas por bom momento de lucro e valuation atrativo." Reforça a tese RADL3 como top pick com valuation defensável a 28 vezes lucro projetado.

XP Investimentos. Retomou a cobertura de PGMN3 com upside estimado em 35% até o fim de 2026, sustentado por três pilares: penetração de GLP-1, recuperação de margem e valuation comprimido. Para a curva de juros, a casa mantém viés construtivo para Tesouro IPCA+ 2035, citando assimetria favorável independente da decisão do Copom.

Pablo Spyer. Em postagens no Instagram nos últimos dias, comentou o Copom desta semana com tom direto, lembrando que "o mercado já comprou a história do corte" e que a leitura do comunicado importa mais que a decisão em si. Para o investidor que não está colado em telas, é sinal de que volatilidade acontece nos próximos sete dias após a reunião, não no dia.

Atenção a uma fonte que não está nesta lista: o post-pauta do Instagram que circulou esta semana com narrativa muito forte sobre o anúncio Novo + OpenAI. O conteúdo factual estava correto, mas o gancho era de copywriting de IA, não de análise de investimentos. Registro a notícia, separo do tom.


6. Como o médico se posiciona

Aqui mora a parte prática. A carteira temática que se desenha precisa coexistir com a janela pré-Copom, e a dose de cada componente é o que separa retorno de armadilha. A tabela abaixo serve como referência para um médico com patrimônio entre R$ 1 e R$ 3 milhões e perfil moderado.

Ativo Tese % sugerido Tipo
RADL3 Núcleo defensivo, GLP-1 a 10% da receita, dividendos 5 a 8% Renda variável BR
HYPE3 Genéricos GLP-1, parceria indiana, alavancagem temática 2 a 4% Renda variável BR
NVOH35 (BDR Novo Nordisk) Big Pharma reinventada por IA, contrarian em mínima 1 a 3% BDR
LLY (BDR LLYC34 ou ETF IBB) Execução de pipeline GLP-1, momentum 1 a 2% BDR
IVVB11 (S&P 500) Hedge dolarizado e diversificação 5 a 10% ETF
Tesouro IPCA+ 2030 a 2035 Base de segurança, mais de 7% real travado 25 a 30% Renda fixa
Tesouro Prefixado 2029 Janela pré-Copom, 13,54% 10 a 15% Renda fixa

Essa é a estrutura. A regra de disciplina que combina com ela vem em três pontos.

O primeiro é o teto setorial. Mesmo com convicção alta na tese GLP-1 + IA, exposição total em saúde não deve passar de 15% da carteira de ações. A história do ciclo ponto com em 1999 e 2000 é o lembrete: parcerias entre big pharma e fornecedores de bioinformática prometeram revolução comparável. Algumas entregaram. Outras evaporaram. Como Morgan Housel costuma lembrar, "o mais difícil em finanças não é prever o futuro, é resistir a se convencer de que você já o previu". A diferença em 2026 é que os modelos generativos têm produto no mercado e taxa de sucesso medida, não apenas slides. Mas a regra permanece: se todo mundo concorda que vai dar certo, o preço já reflete.

O segundo é a sequência. Trave a renda fixa primeiro, antes de quarta-feira. IPCA+ longo a 7% real e Prefixado 2029 a 13,54% são a ancoragem. Depois construa a exposição temática com paciência, distribuindo os aportes em três a seis meses, evitando entrada de uma vez só em ativos voláteis como NVO. Quem entra de uma vez em ativo em queda costuma sair antes do turnaround.

O terceiro é a leitura honesta de risco. NVO em US$ 38,52 está em mínima de cinco anos, com guidance 2026 de receita ajustada entre menos 5% e menos 13% em moeda constante. É tese de turnaround: se a parceria com a OpenAI demorar 24 a 36 meses para virar receita, a ação pode ficar parada ou cair mais antes de subir. Por isso a posição é pequena e o horizonte é longo. LLY a US$ 883,96 negocia a 38 vezes lucro, sem desconto: é tese de momentum e exige disciplina de stop em queda de 15%, especialmente porque o ramp-up da Foundayo segue abaixo do projetado nas duas primeiras semanas.


7. Para fechar

Esta edição mudou o eixo de propósito. Saiu de renda passiva para tese setorial porque o evento é raro e exige posicionamento agora, não daqui a três meses. Mas o mecanismo de proteção continua igual: renda fixa de qualidade ancorando o portfólio enquanto a parte volátil trabalha.

A próxima semana traz dois marcos. Quarta e quinta, decisão do Copom. Sexta, primeiro dia útil de maio, virada de mês com balanços de bancos brasileiros e provável anúncio de novos dividendos. Vou voltar na próxima edição com a leitura do comunicado e o ajuste fino da tese de renda fixa, agora com o cenário pós-decisão na mão.

Antes disso, três coisas práticas para esta segunda e terça-feira: revise a alocação atual em renda fixa, decida o tamanho da posição em RADL3 ou HYPE3 que você consegue carregar com convicção, e separe a fatia de risco temático do resto da carteira para não confundir disciplina com paralisia.

Boa semana.

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Análise semanal de mercado, alocação patrimonial e tese de investimentos para médicos. Escrita por quem é médico e assessor de investimentos.

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Dr. Francisco Vaz

Neurocirurgião e Assessor de Investimentos (ANCORD)

CRM-SP

Esta newsletter tem caráter educacional e informativo. Não constitui recomendação personalizada de investimento, conforme normas da CVM (Resolução 19/2021) e da ANCORD. Cada investidor deve avaliar adequação ao seu perfil, objetivos e situação financeira antes de qualquer decisão. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.