Cinco decisões de caixa, cinco prazos


MedMoney Talks

Inteligência econômica para médicos que pensam além da medicina

Edição #009 | 22 de abril de 2026

A semana da verdade

Tempo de leitura: 8 minutos | Quarta-feira, 22 de abril de 2026


Olá, Colega.

Cinco decisões de caixa. Cinco prazos. Todos entre hoje e o fim de maio.

Copom na quarta e quinta da semana que vem, IRPF vencendo em 29 de maio, reajuste de aluguel comercial entrando em vigor em 1º de maio, plano de saúde subindo e, ao fundo, a Lei 15.270/2025 reorganizando de forma estrutural o imposto que o médico PJ paga em 2026 e em 2027.

Esta edição é mais curta do que as anteriores de propósito. Oito minutos. O que está em jogo é execução, não teoria. Quem fechar abril com essas cinco decisões tomadas entra em maio com caixa folgado, imposto sob controle e portfólio calibrado. Quem empurrar com a barriga, paga duas vezes, em juros e em imposto.

Vamos direto.

1. IRPF 2026: cinco semanas no relógio

Prazo final: 29 de maio de 2026, às 23h59. De hoje até lá, exatamente cinco semanas.

A declaração do médico não é burocracia. É o primeiro filtro de gestão de caixa do ano. É ali que o profissional descobre, em preto e branco, se o pró-labore está otimizado, se o Livro-Caixa foi usado até o fim, se a estrutura PJ faz sentido diante da tributação mínima que chega em 2027.

Três pontos merecem atenção imediata.

Livro-Caixa do autônomo

É a ferramenta mais subutilizada pelo médico PF. Aluguel do consultório, salário da secretária, telefone comercial, materiais clínicos, equipamentos depreciáveis. Tudo é dedutível quando essencial ao exercício da profissão. Cada R$ 10 mil de despesa bem escriturada reduz até R$ 2.750 de imposto na faixa máxima. Quem declarou às pressas no ano passado deixou dinheiro na mesa.

DIMOB e cruzamento de recibos

Todo aluguel pago a pessoa física cruza com o CPF do locador. Divergência vai direto para a malha fina. Vale a hora de conferir.

Nova tabela 2026

Isenção total até R$ 5.000 por mês, redução gradual até R$ 7.350. Acima disso, conta cheia. Para quem está nessa faixa, a retenção na fonte merece recálculo.

A multa por atraso começa em R$ 165,74 e pode chegar a 20% do imposto devido, com juros Selic em cima. Quem entrega na última semana não perde só dinheiro. Perde quatro semanas de janela para conversar com contador sobre a reestruturação que precisa acontecer ainda em 2026.

Ação: agende a sessão com o contador esta semana.

2. Copom 28 e 29 de abril: o divisor de águas

Seis dias úteis. A Selic está em 14,75% ao ano, o maior nível desde julho de 2006. O mercado consolidou o consenso em corte de 25 pontos-base, levando a taxa para 14,50%. Uma minoria relevante defende manutenção, argumentando que o Boletim Focus piorou e que o Banco Central precisa reafirmar credibilidade. Corte de 50 bps está fora do radar.

Para o médico, a decisão prática não mudou.

Mesmo com corte, o custo do crédito PJ segue proibitivo. Cheque especial PF beira 180% ao ano. Capital de giro para consultório roda entre 28% e 40%. Financiamento de equipamento médico fica na casa de 18%. Nenhuma aplicação conservadora vence isso. A regra, hoje, é simples: se a taxa contratual da sua dívida supera 130% do CDI, aproximadamente 18% ao ano, amortizar rende mais do que aplicar.

O que precisa estar pronto antes de quinta-feira, 30 de abril: a lista completa de dívidas PJ e PF, com taxa, saldo devedor, parcelas restantes e data de vencimento. Sem essa lista, a decisão pós-Copom é feita no escuro. Com a lista, a ligação para o banco na manhã de quinta-feira vira negociação de três minutos.

O comunicado do BC importa tanto quanto a decisão. Se o texto sinalizar cautela prolongada, a curva de juros longa empina e os Tesouros IPCA+ com vencimento em 2035 ou mais longos ganham nova janela. Se o tom vier convicto de desinflação, o movimento começa pelos prefixados curtos. Não há motivo para travar renda fixa longa agora, na véspera. Há motivo para estar com o caixa pronto para travar na semana seguinte.

Ação: liste todas as dívidas PJ e PF hoje.

3. Tributação mínima 2027 e IRRF 2026: o bolso PJ mudou

A mudança estrutural mais importante em uma década para o médico PJ de alta renda está na Lei 15.270, de 26 de novembro de 2025. Duas janelas, dois efeitos.

Janela 2026, já em vigor

Dividendos pagos pela mesma PJ à mesma PF acima de R$ 50 mil por mês passam a sofrer IRRF de 10% na fonte. O médico que distribui R$ 65 mil mensais de lucros recolhe R$ 6.500 por mês de imposto retido sobre o montante total de R$ 65 mil. Em doze meses, R$ 78 mil a mais saindo do caixa só por causa da forma como a distribuição está desenhada.

Existe uma regra de transição que protege os dividendos aprovados em ata até 31 de dezembro de 2025 e pagos entre 2026 e 2028. Quem não fez a ata antes da virada, perdeu essa porta.

Janela 2027, ano-calendário 2026

Pessoa física com soma anual de rendimentos acima de R$ 600 mil entra no cálculo de IRPF mínimo. Acima de R$ 1,2 milhão, a alíquota mínima chega a 10%. Entre R$ 600 mil e R$ 1,2 milhão, a progressão é linear. Um redutor impede que a soma de alíquotas PJ mais PF ultrapasse 34%.

O médico com faturamento anual de R$ 1,5 milhão pode ver até R$ 150 mil a mais de IR em 2027 se não reestruturar nada. O médico que decide antes da virada do exercício tem três alavancas na mão: fatiar a distribuição mensal para ficar abaixo do teto de R$ 50 mil por CNPJ-CPF, revisar o mix pró-labore versus dividendos, e avaliar segunda PJ quando as atividades permitirem segregação legítima (consultório e perícias, por exemplo, frequentemente permitem).

O pró-labore mínimo legal em 2026 é de um salário-mínimo, R$ 1.621. Mas pró-labore baixo demais com distribuição alta demais é exatamente o desenho que a nova regra foi feita para pegar.

Ação: simule a PJ atual versus uma estrutura reorganizada nas próximas duas semanas, com o contador.

4. Focus de 20 de abril: IPCA a 4,80% e Selic a 13%

O Boletim Focus desta semana marcou duas revisões desconfortáveis. A projeção de IPCA 2026 subiu pela sexta semana consecutiva, de 4,71% para 4,80%, acima do teto da meta de 4,50%. E a Selic projetada para o fim de 2026 saltou de 12,25% para 13%, em uma única semana.

Isso é estagflação branda. A atividade desacelera, o PIB projetado ficou em 1,86%, mas a inflação persiste e o ciclo de cortes que o mercado vinha precificando perdeu folga. Para o consultório, a leitura é direta: juros altos por mais tempo, crédito caro por mais tempo, e custo fixo subindo.

O IPCA acumulado de doze meses até março fechou em 4,14%. Esse é o índice que reajusta a maioria dos contratos de aluguel comercial em maio. Folha de funcionários é puxada pelo salário-mínimo, que subiu 6,79% em 2026 e redefine o piso de secretárias e auxiliares. Insumos clínicos e medicamentos correram acima da inflação geral: o grupo saúde pesou 0,96% no IPCA-15 de abril, mais da metade da inflação do mês inteiro.

O câmbio deu sinais construtivos. O dólar à vista fechou 22 de abril a R$ 4,974, segunda queda consecutiva, e a projeção Focus para o fim do ano recuou de R$ 5,37 para R$ 5,30. Mas o lado fiscal segue sendo o ponto fraco, e qualquer deterioração pode inverter o sinal em dias.

Nesse ambiente, prefixado longo vira aposta. Tesouro Selic e CDB de liquidez diária seguem como colchão. IPCA+ com vencimento 2035 ou além segue pagando juro real acima de 7% ao ano em alguns vértices, uma janela que não deve durar para sempre, mas também não precisa ser travada na véspera do Copom.

5. Reajustes de maio: aluguel, plano de saúde, folha

Nove dias até o primeiro de maio. O médico dono de consultório tem pouco tempo para evitar que o reajuste automático entre em regime de piloto automático.

Simulação: custos mensais do consultório médico, 2026 versus 2025

Item Base 2025 Reajuste Base 2026 Diferença anual
Aluguel comercial R$ 6.000 +4,14% (IPCA 12m) R$ 6.249 R$ 2.988
Folha de 3 funcionários (piso) R$ 5.700 +6,79% (mín.) R$ 6.087 R$ 4.644
Insumos e medicamentos R$ 3.500 +3,81% R$ 3.633 R$ 1.596
Plano de saúde equipe (3 vidas) R$ 2.400 +8,5% (coletivo) R$ 2.604 R$ 2.448
Telefone, internet, energia R$ 1.200 +4,14% R$ 1.250 R$ 600
Total mensal R$ 18.800 R$ 19.823 R$ 12.276

Um consultório de porte médio absorve R$ 12 mil a R$ 15 mil a mais de custo fixo em 2026 sem mexer em nada. Dois plantões de fim de semana por mês, só para empatar.

A pergunta prática é mais dura. O honorário particular foi reajustado em 4,14%? Convênio subiu alguma coisa? Se a resposta é não, a margem líquida encolhe em silêncio. É reduflação invertida: o custo aumenta, o preço fica parado, o resultado cai sem alarme.

Aluguel

Converse com o proprietário antes de 1º de maio. Contratos antigos, com inquilinos pontuais, abrem margem para reajuste parcial, escalonamento ou renovação antecipada com teto. A chance zero é a de quem não liga.

Plano de saúde familiar

A expectativa de 7,5% para planos individuais segundo o BTG, e mais de 10% nos coletivos empresariais, pode empurrar a mensalidade em R$ 300 a R$ 600 por mês. Vale cotar alternativas antes da renovação.

Tabela particular

Reajuste entre 5% e 7% em procedimentos, 3% a 4% em consultas, antes de julho. Pacientes recorrentes absorvem. Quem não reajusta, subsidia.

6. Painel dos analistas

Quatro leituras da semana que conversam com as decisões de caixa.

Charles Mendlowicz (@charles.wicz, 22 de abril)

“Moedas de países emergentes, como o Real, sobem e descem o tempo todo. Dolarizar não é apostar contra o Brasil. É gestão de risco. É proteção de poder de compra.”

Observação: o real foi a moeda que mais se valorizou no mundo em 2026. Isso não anula a tese de exposição estrutural de cerca de 10% do patrimônio em dólar. Confirma.

Bruno Perini (@bruno_perini, 22 de abril)

“O mais impressionante nem é o Brasil caminhar para uma dívida pública equivalente a 100% do PIB. É fazer isso depois de aumentar impostos, ampliar arrecadação e ainda assim não conseguir entregar equilíbrio fiscal.”

Observação: a tributação mínima de 2027 nasce desse diagnóstico. Quem depende só do governo para planejar o próprio caixa está na fila errada.

Pablo Spyer (@pablospyer, 22 de abril)

“Na volta de feriado, Ibovespa cai 1,65% e vai a 192.888 pontos, com ajuste e petróleo.”

Observação: é ajuste técnico pós-feriado, não mudança de tendência. A Petrobras teve data de corte dos dividendos hoje, 22 de abril, e amanhã negocia ex. Pressão adicional no papel na quinta é movimento esperado.

Ramiro Ferreira (@ramirogomesferreira, 22 de abril)

“Toda bolha termina do mesmo jeito: os últimos a chegar aceitam promessas piores, topam riscos maiores e pagam caro demais.”

Observação: vale tanto para ativo de moda quanto para operação estruturada na pressa do apagar das luzes. Médico que resolve tributação em dezembro de 2026 paga essa taxa de urgência.

Fechamento

Esta semana tem Copom, IRPF correndo, reajuste de aluguel batendo na porta e uma lei tributária reorganizando 2026 e 2027. Cinco decisões, cinco prazos. Nenhuma delas é opcional.

O médico que trata pelo método, não pelo susto, abre a semana que vem com a lista de dívidas na mesa, a conversa com o contador agendada e o aluguel renegociado. Quem empurrar, paga em maio. E paga mais caro em 2027.

Boa semana, Colega. Na próxima quarta, revisamos o que o Copom trouxe e o que ainda precisa ser feito até o fim do mês.

Dr. Francisco Vaz

Neurocirurgião, CRM-SP
Assessor de Investimentos credenciado pela ANCORD
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Fontes: Banco Central do Brasil (Boletim Focus de 20/04/2026), IBGE (IPCA-15 abril/2026), Receita Federal, Lei 15.270/2025, Tesouro Nacional, B3, BTG Pactual, Charles Mendlowicz (@charles.wicz), Bruno Perini (@bruno_perini), Pablo Spyer (@pablospyer), Ramiro Gomes Ferreira (@ramirogomesferreira). MedMoney Talks é uma publicação semanal do Dr. Francisco Vaz.

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