Oncoclínicas: caixa para 15 dias


MedMoney Talks

Inteligência econômica para médicos que pensam além da medicina

Edição #006 | 13 de abril de 2026

Quando o mapa muda no meio da cirurgia

Tempo de leitura: ~14 minutos


Você já esteve numa cirurgia em que o exame de imagem dizia uma coisa e o campo operatório mostrava outra ligeiramente diferente?

Eu já. Algumas vezes.

A ressonância mostrava um tumor bem delimitado, margens claras, plano de ressecção definido. Faz a craniotomia, abre a dura-máter… e o que aparece é uma lesão infiltrativa, sem um plano de clivagem nítido, com um aumento de vascularização que nenhum exame antecipou. O mapa mudou. No meio da cirurgia. E você precisa decidir. Agora.

O mercado financeiro fez exatamente isso esta semana.

Na segunda-feira, o cessar-fogo entre EUA e Irã trouxe alívio. O petróleo despencou até 16%. Na sequência, o Ibovespa bateu recorde histórico três vezes consecutivas e o dólar chegou a R$ 5,01. O mapa parecia lindo. Margens claras, plano definido.

E então, no sábado, o cessar-fogo colapsou. Trump ordenou bloqueio naval seletivo no Estreito de Ormuz. O US oil disparou 8,63%, o Brent saltou 8,04%. Os futuros do Dow caíram 531 pontos. O ouro recuou 2,28%. O mapa mudou. De novo.

Colega, o que separa o cirurgião que congela do cirurgião que opera é uma coisa só: preparo. A gente, por vezes, não controla integralmente o campo operatório, mas a gente controla o quanto está preparado para o que ele revelar.

E esta edição é sobre isso. Sobre o preparo que ninguém vê, mas que salva tudo quando o mapa muda.

Vamos.

1. Ormuz, petróleo e o bisturi que cortou o mapa

O Estreito de Ormuz é, para o mercado global, o que a artéria carótida interna é para o cérebro: um corredor estreito por onde passa quase tudo o que sustenta a vida do sistema. Por ali transitam 20% de todo o petróleo consumido no planeta. Quando ele fecha, o mundo entra em isquemia.

E ele fechou. De novo.

A cronologia da semana é uma montanha-russa que merece ser contada com precisão:

7 de abril (segunda): Cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão. O Irã propõe 10 pontos, incluindo passagem controlada pelo estreito. O Kobeissi Letter publicou no X: “Iran says it has ‘forced’ the US to accept its ’10-point plan’.” O mercado respira. Brent desaba de US$ 110 para US$ 94,75. Queda de 13% a 16% num único dia.

8 de abril (terça): Ibovespa renova recorde, alcançando 192.201 pontos. Dólar cai para R$ 5,17. Euforia cautelosa.

9 de abril (quarta): Israel bombardeia 100 alvos do Hezbollah no Líbano em 10 minutos. A maior ofensiva desde o início do conflito. O Irã acusa violação do cessar-fogo e fecha novamente o estreito.

10 de abril (quinta-sexta): Ibovespa renova recorde mais duas vezes, atingindo 197.323 pontos. Pablo Spyer resumiu no X: “Ibovespa emenda 3º dia de recordes com diálogo EUA-Irã.” Dólar cai a R$ 5,01. Brent oscila entre US$ 96 e US$ 100.

12 de abril (sábado, reportagem Fortune): As negociações em Islamabad colapsam. O Kobeissi Letter já havia alertado: “Negotiators are ‘pessimistic’ Iran will bend to meet President Trump’s demand.” O Valor Econômico publicou no Instagram: “Petroleiros evitam Ormuz antes de bloqueio dos EUA.” E então veio o golpe: Trump ordena o que o Pentágono classificou como “bloqueio seletivo” do Estreito de Ormuz. A diferença é cirúrgica. O CENTCOM declarou: “will not impede freedom of navigation for vessels to/from non-Iranian ports.” Ou seja, a Marinha americana não bloqueou o estreito inteiro. Bloqueou o petróleo iraniano. Navios não iranianos seguem passando. É um torniquete direcionado, não uma ligadura geral.

O impacto nos mercados foi imediato:

Indicador Movimento pós-bloqueio (12/04)
US oil (WTI) +8,63%, para US$ 104,90/barril
Brent +8,04%, para US$ 102,85/barril
Dow futures -531 pontos (-1,10%)
S&P 500 futures -1,15%
Nasdaq futures -1,32%
Ouro -2,28%, para US$ 4.678/oz

Pablo Spyer dedicou seu “Minuto Touro de Ouro” no Instagram exatamente a este tema: “Mercados olham ameaça de fechar Ormuz, Goldman Sachs e Datafolha.” O Goldman Sachs publicou alerta na sexta-feira: se o Ormuz permanecer com tráfego restrito por mais de 30 dias, o Brent pode ficar acima de US$ 100 durante todo 2026. No cenário severo, o Goldman projeta US$ 120 por barril no terceiro trimestre e US$ 115 no quarto. O modelo base assume 21 dias de fluxos reduzidos a cerca de 10% do normal, com recuperação em 30 dias. Mas o próprio banco reconhece: os riscos estão assimetricamente enviesados para cima.

Para o Brasil, a equação é dupla.

O lado bom: Petrobrás se beneficia. Receita em dólar, custos em real. Na quarta-feira, PETR4 subiu 2,77%. Royalties do petróleo aliviam parcialmente o risco fiscal.

O lado que dói: gasolina já foi o principal driver do IPCA de março. Cada dólar a mais no barril de petróleo vira centavo a mais no litro da bomba. E combustível caro não afeta só o tanque do carro. Afeta a logística hospitalar, o preço dos insumos, o custo de manter uma clínica funcionando.

A analogia é inevitável: estamos diante de um vasoespasmo econômico global. O fluxo está criticamente comprometido. E a conduta é a mesma que a gente adota no hospital: não entrar em pânico, monitorar os sinais vitais, e não tomar decisões irreversíveis sob estresse.

Insight prático: Quem manteve posição em renda variável brasileira colheu frutos nesta semana passada. Ibovespa acima de 197 mil pontos. Mas o colapso do cessar-fogo no domingo pode mudar o cenário para esta semana. Este é o momento de proteger lucros, não de aumentar exposição agressivamente.

2. O mundo que mexe na sua carteira enquanto você opera

Enquanto você estava no centro cirúrgico, movimentos globais aconteceram simultaneamente. Todos eles afetam o seu patrimônio e cada um merece atenção individualizada.

O Fed e a sombra de uma alta

A ata da reunião de março do FOMC, divulgada em 8 de abril, revelou algo que poucos esperavam. “Alguns” dos membros do comitê agora apoiam manter a possibilidade de alta de juros explicitamente sobre a mesa. Leia de novo. Alta. A inflação impulsionada pela guerra no Irã e o petróleo acima de US$ 100 preocupam profundamente o comitê.

Sete membros esperam apenas um corte de juros em 2026. O mesmo número vê as taxas se mantendo inalteradas. E no mercado de opções, a probabilidade implícita de uma alta de juros pelo Fed já está em 30%. Era praticamente zero há seis meses.

A próxima reunião do FOMC acontece em 28 e 29 de abril. Será a última presidida por Jerome Powell como chairman. Trump nomeou Kevin Warsh como sucessor, mas a audiência de confirmação no Senado, originalmente marcada para 16 de abril, foi adiada. Powell fica no cargo até Warsh ser confirmado. O mandato expira em 15 de maio.

O dominó é preciso: se o Fed mantém juros altos por mais tempo (ou, no cenário de risco, os sobe), ativos de risco globais sofrem. Dólar volta a subir. Investimentos em renda fixa americana ficam mais atrativos. E o diferencial de juros que hoje atrai capital para o Brasil (14,75% vs 3,50-3,75%) pode começar a encolher.

Kobeissi Letter: três alarmes em sequência

O Kobeissi Letter disparou três alertas esta semana:

1. Liquidez do S&P 500 em colapso. A profundidade de mercado nos futuros do S&P 500 caiu 80% no ano, para apenas US$ 5,1 milhões. Mercado fino é mercado perigoso. Qualquer fluxo relevante causa oscilações desproporcionais.

2. Fuga institucional do crédito privado. Resgates recordes de US$ 14 bilhões no primeiro trimestre de 2026 (alta de 146% em relação ao trimestre anterior). O dinheiro institucional está se movendo e saindo.

3. Famílias americanas all-in em ações. A exposição de famílias americanas a ações atingiu 25,63%, o maior nível desde os anos 1940, superando a bolha das pontocom. Quando todo mundo está dentro, não há mais comprador marginal. O risco de correção cresce exponencialmente.

BlackRock: três temas para o segundo trimestre

A maior gestora do mundo publicou seus três temas-chave para 2026:

“Micro e Macro”: gastos corporativos com IA são tão grandes que já têm impacto macroeconômico. Não é mais uma história de startup. É PIB.

“Alavancagem crescente”: empresas vão continuar acessando crédito para financiar IA. O endividamento corporativo é uma variável a monitorar com atenção.

“Miragem da diversificação”: Treasuries de longo prazo não são mais hedges confiáveis para carteiras de ações. Investidores precisam buscar fontes alternativas de proteção.

Três pontos para levar, colega:

1. O cenário global é de fragilidade estrutural, não de crise aguda. A diferença importa. Fragilidade exige posição defensiva e liquidez. Crise exige ação imediata. Estamos no primeiro caso.

2. O diferencial de juros brasileiro segue extremamente atrativo. Com Selic a 14,75% e Fed em 3,50-3,75%, o Brasil oferece um dos maiores juros reais do planeta. Isso explica o dólar abaixo de R$ 5,02 e o fluxo estrangeiro para a Bolsa.

3. A probabilidade de 30% de alta de juros nos EUA é o dado mais incômodo da semana. Se isso se materializar, haverá um efeito cascata sobre mercados emergentes. Mantenha posições existentes em ativos dolarizados, mas não aumente concentração agora.

3. IPCA, Focus e o que está por vir

O IBGE soltou o IPCA de março na quinta-feira: 0,88%.

O número, por si só, já assusta. Mas o que está por trás dele é pior.

A gasolina subiu 4,59% num único mês. Sozinha, respondeu por quase um terço de toda a inflação de março. Alimentação completou o estrago. Juntos, gasolina e comida foram responsáveis por 76% da alta do índice.

O acumulado de 12 meses subiu para 4,14%. A meta do Banco Central é 3,50%, com banda até 5,00%. Estamos dentro da banda, mas nos afastando do centro. E, muitas vezes, a direção importa mais do que o nível.

O Boletim Focus da semana confirmou o pessimismo crescente. Pela quarta semana consecutiva, as projeções subiram. O IPCA projetado para 2026 agora é 4,36%, perigosamente próximo do teto. Selic projetada em 12,50% para dezembro. Para 2027, inflação projetada em 3,85%. Para 2028, 3,60%.

A inflação é como uma lesão infiltrativa: quando você percebe no exame de imagem, ela já está maior do que o esperado. O IPCA de 0,88% em março é o sinal de que o mapa mudou. Preste atenção.

4. Hapvida e Oncoclínicas em crise, FENAM reajusta 3,9%, e o gap que só cresce

Se você trabalha com convênio, esta seção vai doer um pouco.

Mas dor diagnosticada é dor tratável.

Hapvida: 85% de destruição desde o IPO

A Squadra Investimentos, detentora de 6,98% do capital votante da Hapvida, não poupou palavras esta semana: classificou a gestão recente como “uma das maiores destruições de valor da história” do mercado brasileiro. E os números sustentam a crítica com força cirúrgica.

HAPV3 acumula queda de 85% desde o IPO, em abril de 2018. De cada R$ 100 investidos no dia da abertura de capital, restam R$ 15. O Bank of America cortou o preço-alvo de R$ 35 para R$ 19. O Morgan Stanley projeta lucro de R$ 224 milhões, muito abaixo do consenso de R$ 430 milhões.

Um número que chocou o mercado: a remuneração do conselho de administração da Hapvida foi de R$ 57 milhões, o equivalente a 1% do valor de mercado da empresa. Para comparação, o Itaú, que vale mais de trinta vezes a Hapvida, paga o mesmo montante ao seu conselho. A desproporção dispensa comentários.

A transição de liderança já começou. Jorge Pinheiro deixou o cargo de CEO após 27 anos de empresa. Luccas Adib assume como novo CEO em 30 de abril. Lucas Garrido foi indicado para a vice-presidência de Finanças. Assembléia marcada para o mesmo dia pode trazer mudanças adicionais no conselho.

Para você, médico credenciado: instabilidade na maior operadora vertical do país (16+ milhões de beneficiários) significa risco real de renegociação forçada de contratos, revisão de tabelas e atrasos em pagamentos. Se mais de 30% da sua receita vem de unidades Hapvida, é hora de diversificar. Diversificação de receita clínica é, neste cenário, uma estratégia financeira, não apenas uma preferência profissional.

Oncoclínicas: caixa para 15 dias e risco de continuidade

Se a Hapvida é um paciente grave, a Oncoclínicas (ONCO3) está em parada cardiorrespiratória.

A maior rede de oncologia da América Latina reportou prejuízo de R$ 1,52 bilhão no 4T25, dobrando as perdas em relação ao mesmo período de 2024 (R$ 759 milhões). No ano inteiro de 2025, o prejuízo acumulado foi de R$ 3,6 bilhões. A auditoria independente incluiu no balanço um parágrafo de “incerteza sobre continuidade operacional”. Traduzindo: existe dúvida formal sobre se a empresa vai continuar existindo.

A situação de caixa é terminal. A Oncoclínicas tem recursos para apenas 15 dias de operação. A dívida sujeita a covenants soma R$ 2,9 bilhões, e a empresa já estourou os limites de alavancagem (4,3x), o que acionou cláusulas de vencimento antecipado. Dos R$ 2,9 bilhões, conseguiu waiver para apenas R$ 1 bilhão. O restante, R$ 1,88 bilhão, está em vencimento de curto prazo.

O impacto na operação já é real: cerca de 3.000 pacientes tiveram tratamentos adiados por falta de recursos para comprar medicamentos. Casos graves estão sendo transferidos para hospitais parceiros, que também enfrentam dificuldades de absorção.

Na governança, o colapso é total. O presidente do conselho, Marcelo Gasparino da Silva, renunciou, provocando a saída de todos os membros do conselho de administração de uma vez. O CFO também renunciou. A empresa ajuizou uma tutela cautelar no TJ-SP para suspender obrigações financeiras e evitar antecipação de dívidas pelos credores.

A única linha de vida à vista: a Porto Seguro (PSSA3) assinou um memorando de entendimentos para uma possível injeção de até R$ 1 bilhão na operação de clínicas. Mas o acordo ainda é não vinculante.

ONCO3 acumula queda de 72% em 12 meses, cotada a R$ 1,35. Quem tinha R$ 100 em Oncoclínicas há um ano tem R$ 28 hoje.

Para você, oncologista ou médico que atende em unidades Oncoclínicas: o risco aqui não é apenas financeiro. É clínico. Atraso em tratamento oncológico é potencialmente letal. Se você tem pacientes em tratamento nessas unidades, monitore de perto. Tenha um plano B de encaminhamento. E se mais de 20% da sua receita vem da rede Oncoclínicas, diversifique com urgência. A situação pode se deteriorar rapidamente nas próximas semanas.

FENAM: reajuste de 3,9% pelo INPC

A FENAM publicou os novos valores de referência para 2026, com reajuste de 3,9% baseado no INPC. Os números atualizados:

Referência FENAM Valor 2026
Piso 20h semanais R$ 21.122,56
Consulta mínima R$ 259,39
Plantão 12h R$ 3.168,38
Hora trabalhada R$ 264,03

O reajuste de 3,9% está abaixo da inflação projetada pelo Focus (4,36%). Pela primeira vez em vários anos, o piso referencial da FENAM não acompanha nem o IPCA esperado. E um lembrete necessário: são valores de referência, não obrigatórios por lei. Não existe piso salarial legal para médicos no Brasil. O Projeto de Lei em tramitação não tem previsão de votação em 2026.

A defasagem que ninguém quer ver

A CBHPM recebeu reajuste de 5,10% pelo INPC. A Unidade de Custo Operacional (UCO) está em R$ 29,80. Mas a inflação médica real (VCMH) é de aproximadamente 12,9% ao ano. O gap entre o custo de prestar o serviço e o que se recebe por ele continua se ampliando. Em 8 anos, a defasagem acumulada dos honorários ultrapassa 54%.

Procedimento que custava R$ 500 para executar em 2020 agora custa R$ 630, mas você recebe R$ 530. A conta não fecha. E não vai fechar enquanto o modelo for esse.

A resposta? Diversificação de receita. Telemedicina, procedimentos particulares, consultorias, educação médica. E, acima de tudo, uma reserva de emergência robusta que te dê margem para negociar de igual para igual. Sem reserva, o médico aceita qualquer tabela porque precisa do fluxo. Com reserva, ele negocia de pé.

Tem gente abrindo curso. Tem gente abrindo corpo. E tem quem esteja abrindo caminho. Abrir caminho, às vezes, é olhar para a conta que não fecha e decidir mudar o jogo.

5. Reserva de emergência — o sistema imunológico do seu patrimônio

Colega, vou começar com uma pergunta que você provavelmente já fez a algum paciente:

“Há quanto tempo você ignora esse sintoma?”

A reserva de emergência é o exame que todo mundo adia. A gente sabe que precisa. A gente sabe que é importante. Mas sempre tem algo mais urgente. Um investimento mais “interessante”. Uma oportunidade que “não pode esperar.”

Mas a reserva não é um investimento. É uma proteção. E a diferença entre proteção e investimento é a mesma diferença entre o sistema imunológico e o sistema muscular. Músculo ajuda bastante e chega até a impressionar, mas é o sistema imunológico que salva.

Por que 6 a 12 meses e não 3?

Porque médico não é CLT com salário fixo dia 5.

Médico tem renda variável. Plantões flutuam. Consultórios têm sazonalidade. Operadoras atrasam. E glosam. Entre 15% e 30% do faturamento pode ser glosado. Um descredenciamento pode eliminar 20% a 40% da receita de uma só vez. A recuperação leva 3 a 6 meses.

E tem o risco que ninguém gosta de falar: burnout. Em 2025, o Brasil registrou 365.684 afastamentos por saúde mental junto ao INSS. Os afastamentos específicos por burnout triplicaram em dois anos: de 1.760 casos em 2023 para 6.985 em 2025. E 45% dos médicos apresentam algum grau de transtorno mental. O risco de ficar três a seis meses sem atender, com custos fixos correndo e sem receita entrando, não é hipotético. É estatístico.

Sem reserva, qualquer resfriado financeiro vira UTI.

Onde NÃO alocar: o aviso sobre a poupança

Vou ser direto. Poupança não é investimento. É um endereço onde o dinheiro dorme mal e acorda pior. A poupança rende 0,5% ao mês + TR, algo em torno de 7,7% ao ano. Com a Selic a 14,75%, isso significa que seu dinheiro na poupança está rendendo praticamente metade do que poderia. É como operar com uma das mãos amarrada.

Se você tem reserva de emergência na poupança, migre. Hoje. Não amanhã. Não na semana que vem. Hoje.

CDB de liquidez diária vs Tesouro Selic: o detalhe que importa

Existe uma diferença sutil que poucos assessores explicam, mas que faz diferença concreta para valores acima de R$ 10 mil.

O Tesouro Selic é isento de taxa de custódia até R$ 10 mil investidos. Acima disso, a B3 cobra 0,20% ao ano sobre o excedente. Para R$ 150 mil em Tesouro Selic, são R$ 280 de custódia por ano.

Já o CDB de liquidez diária com remuneração igual ou superior a 100% do CDI não tem taxa de custódia. É coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até R$ 250 mil por instituição financeira. Para valores acima de R$ 10 mil, o CDB de liquidez diária é, na prática, mais eficiente que o Tesouro Selic.

A estratégia ideal combina os dois: Tesouro Selic como núcleo de segurança soberana (até R$ 10 mil sem custódia) e CDBs de liquidez diária de bancos sólidos para o restante. Se você preferir CDBs de bancos pequenos, sempre fique atento e respeite o limite do FGC por instituição (muita gente aprendeu isso de maneira dolorosa com o Banco Master!).

“Francisco, e investir em ETFs como reserva de emergência?” São também uma ótima opção. Cito três nomes: AUPO11, LTBX11 e POSB11. Mas isso é papo para uma outra edição do MedMoney Talks.

Simulação com R$ 150.000 (Selic a 14,75%, 12 meses)

Com a Selic no patamar atual, sua reserva de emergência está rendendo como nunca rendeu na história:

Produto Taxa anual Rend. bruto 12m IR (15%) Rend. líquido 12m Liquidez
Tesouro Selic ~14,75% R$ 22.125 R$ 3.319 R$ 18.806 D+1
CDB 100% CDI ~14,65% R$ 21.975 R$ 3.296 R$ 18.679 D+0 a D+1
CDB 105% CDI ~15,38% R$ 23.070 R$ 3.465 R$ 19.609 D+0 a D+1
LCI 93% CDI ~13,62% R$ 20.430 Isenta R$ 20.430 90+ dias

O CDB 105% CDI rende R$ 19.609 líquidos em 12 meses. São mais de seis plantões de 12 horas pelo piso FENAM (R$ 3.168,38). Capital trabalhando enquanto você dorme. Ou opera. Ou simplesmente descansa, algo que você também merece.

A LCI 93% CDI é a mais eficiente para quem pode abrir mão de liquidez nos primeiros 90 dias, por ser isenta de IR. Mas atenção: para reserva de emergência, o CDB de liquidez diária é mais adequado. A LCI serve melhor como complemento da carteira, não como proteção de última linha.

6. O que fazer esta semana

Oito ações concretas. Nenhuma exige mais de trinta minutos. Todas podem mudar a trajetória do seu patrimônio em doze meses.

  • 1Verifique onde está sua reserva de emergência. Se estiver na poupança, migre para CDB 100% CDI com liquidez diária (até R$ 250 mil por banco, coberto pelo FGC).
  • 2Calcule sua reserva ideal: some seus gastos pessoais mensais. Multiplique por 12. Esse é o número.
  • 3Proteja lucros da renda variável. Com Ibovespa em recorde e cessar-fogo colapsando, é momento de rebalancear, não de aumentar exposição. Quem surfou a alta da semana, realize parte.
  • 4Revise sua estrutura de distribuição de dividendos com seu contador. Mudanças tributárias em curso exigem atenção redobrada. Confirme que seu regime está otimizado para o cenário atual.
  • 5Monitore a assembleia da Hapvida em 30 de abril e os desdobramentos da tutela cautelar da Oncoclínicas. Se você é credenciado em qualquer das duas redes, fique atento a sinais de renegociação de tabelas, atrasos em pagamentos ou interrupção de tratamentos. Diversifique fontes de receita clínica.
  • 6Confira seus informes para o IRPF 2026 (prazo: 29 de maio). A Receita cruza 100% dos recibos médicos via Receita Saúde. Qualquer divergência, mesmo involuntária, gera alerta automático de malha fina.
  • 7Acompanhe a reunião do FOMC em 28-29 de abril. Se o Fed sinalizar alta de juros, haverá impacto no câmbio e na renda fixa global. Esteja preparado, não reativo.
  • NÃO faça: vender posições por pânico com o bloqueio naval. A volatilidade do petróleo não muda a estratégia de reserva. Ela reforça a necessidade de ter uma reserva robusta e acessível. Seu horizonte é de décadas, não de manchetes. Siga o protocolo.

7. O número da semana

365.684
Afastamentos por saúde mental no Brasil em 2025.

Trezentos e sessenta e cinco mil, seiscentos e oitenta e quatro pessoas que precisaram parar. Que o corpo disse basta antes que a mente conseguisse dizer. Os casos de burnout triplicaram em dois anos: de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025.

E 45% dos médicos apresentam algum grau de transtorno mental.

Colega, esse número não é abstrato. É o colega que sumiu do grupo do WhatsApp. A residente que pediu licença. O cirurgião que parou de operar.

A reserva de emergência protege o patrimônio, sim. Mas protege algo maior: a possibilidade de parar quando precisar. De dizer não ao plantão que destrói. De buscar tratamento sem o terror de não ter como pagar as contas enquanto se cuida.

A saúde mental do médico é um problema estrutural. A reserva financeira é uma das poucas respostas individuais possíveis enquanto o sistema não muda.

Seis mil, novecentos e oitenta e cinco casos de burnout. Triplicou em dois anos. Se esse número não te faz parar para pensar, pelo menos te faça parar para calcular: quantos meses a sua reserva cobre se você precisar parar amanhã?

8. Antes de fechar…

“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

A semana foi isso. Travessia.

O cessar-fogo que veio e colapsou. O Ibovespa que bateu recorde e pode devolver tudo na segunda-feira. O bloqueio naval que mudou o tabuleiro do petróleo. A FENAM que reajustou abaixo da inflação. A Hapvida que trocou de CEO depois de perder 85% de valor.

A gente não controla nada disso.

O que a gente controla é o preparo. A reserva que existe antes da crise. O conhecimento que ilumina antes do pânico. A disciplina que segura a mão antes do erro.

Eu comecei a estudar investimentos porque percebi que sabia abrir um crânio, mas não sabia ler um extrato bancário. Continuei porque vi colegas brilhantes, cirurgiões de mão divina, sendo destruídos financeiramente por falta de informação básica. E sigo porque acredito, com a fé de quem já viu a ciência terminar e o sagrado começar, que proteger o patrimônio de um colega é um ato de cuidado tão válido quanto qualquer cirurgia.

A reserva de emergência não é sexy. Não aparece em roda de investimentos. Ninguém posta no Instagram que tem 12 meses de gastos em CDB de liquidez diária.

Mas é ela que te dá a liberdade de dizer não. Não ao plantão que destrói. Não ao convênio que humilha. Não à decisão financeira tomada sob pressão.

E liberdade é o melhor investimento que existe.

Cuide da sua saúde. Cuide do seu patrimônio. Cuide do que importa.

Que tenhamos uma semana de clareza, de boas escolhas e de paz. Com fé, com prudência… e com a tranquilidade de quem sabe que, quando o mapa mudar, estará preparado.

Boa travessia, colega.

Dr. Francisco Vaz

Neurocirurgião | Assessor de Investimentos (ANCORD)
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Fontes: Banco Central do Brasil, IBGE (IPCA março/2026), Boletim Focus (06/04/2026), Federal Reserve (ata FOMC março/2026), Fortune (12/04/2026), CENTCOM, Goldman Sachs, Kobeissi Letter, BlackRock Weekly Commentary, Bank of America, Morgan Stanley, XP Investimentos, Squadra Investimentos, Oncoclínicas, Porto Seguro, Fitch Ratings, FENAM, AMB (CBHPM), ANS, INSS/Ministério da Previdência Social, Tesouro Nacional, B3, FGC, CNN Brasil, Bloomberg, InfoMoney, Agência Brasil, Money Times, Seu Dinheiro, Exame, Investidor10.

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